A fotografia na produção de sentido e memória através da história da Psicologia

“(…) Dentro da biblioteca a professora conversou com a gente sobre como funcionaria a pesquisa. Nos posicionamos de frente para as prateleiras que possuía aqueles vários cadernos bem grandes. Neles estavam todas as fichas dos pacientes que deram entrada no Hospital Nacional dos Alienados de 1908 a 1920 e poucos. Abrimos um dos cadernos sobre a mesa e o meu primeiro pensamento, na expectativa, foi: FOTOS! Já em 1908 a maioria das fichas do hospital possuíam fotos. As fotografias certamente me desconcertam porque elas nos fazem relacionar aqueles documentos diretamente aos rostos, aos seres humanos. E instigou mais a minha curiosidade: qual era a situação daquela pessoa em particular? As imagens em que é necessário que alguém segure a cabeça do paciente são as mais chocantes.(…)”

Mariana Carmo. 21 de novembro de 2017, Rio de Janeiro.

Fotografia: memória, sentimento e história

A fotografia tem como grandes características, duas delas, relatar e documentar. Uma foto tem a capacidade de contar histórias de séculos passados, por exemplo. Segundo Roland Barthes, há na imagem o fenômeno de indicialidade, ou seja, a foto serve também como um indício ou comprovação de uma história que pode ter sido alvo de uma quebra de legitimidade com o passar do tempo. Em muitos casos, um documento oficial vem acompanhado de uma foto, seja de alguém ou de um local. A foto vem sempre acompanhada com um sentimento de fazer existir, de fazer comprovar.

Psicologia e fotografia

Na Psicologia, a fotografia tem sido um instrumento potente de análises históricas e de pesquisas qualitativas e é cada vez mais utilizada em diferentes áreas para investigação das mais diversas questões. Considerando que a fotografia está cada vez mais presente na comunicação e no cotidiano, cabe também explorar suas possibilidades como instrumento de pesquisa. Alguns artigos fazem levantamentos dos estudos em que se utiliza a fotografia na metodologia de investigação e analisam o alcance e limitações de seu uso. O exame das poucas pesquisas que se valeram da fotografia demonstrou que o recurso fotográfico é ainda pouco explorado pela Psicologia como um recurso eliciador da subjetividade.

No início do século XX, a fotografia serviu para a seleção de pessoas capacitadas a trabalhar na reconstrução pós-guerra. Tal pesquisa (ANDERSON, 1921; Neiva-Silva; Koller, 2002) tentava criar um critério, comparando traços faciais com QI, que rapidamente indicassem quais pessoas se encaixariam em categorias relacionadas à inteligência superior ou inferior. Como conclusão deste estudo, tal método não foi considerado confiável uma vez que não foi possível correlacionar significativamente as imagens com o coeficiente de inteligência.

Outra pesquisa da época, realizada por Pintner em 1918 (Neiva-Silva; Koller, 2002), procurava relacionar traços físicos com a inteligência, desta vez, com crianças. Um corpo de juízes composto por profissionais de diversas áreas deveria organizar as fotos em uma sequência que indicasse qual criança teria maior ou menor nível de inteligência.

O principal objetivo, ao se trabalhar com a fotografia junto à Psicologia, atualmente, é a atribuição de significado à imagem. As relações estabelecidas entre estes dois construtos foram, inicialmente, colocadas por William James (1890, citado por Dinklage & Ziller, 1989) que definiu o significado das palavras como sendo imagens sensoriais trazidas à consciência. Assim, adotando-se o pressuposto de que parte das pessoas teria dificuldade em expressar verbalmente determinados temas, o uso da fotografia poderia auxiliar na comunicação destes significados, permitindo uma melhor compreensão destes conteúdos por parte do pesquisador.

Hospício Nacional de Alienados

No Brasil, em 8 de dezembro de 1852 foi inaugurado o Hospício Pedro II, com a presença do Imperador, conhecido popularmente como “Palácio dos Loucos”. Em 1890 o hospital é renomeado por Hospital Nacional de Alienados.

O depoimento que abriu esse texto é de Mariana Agatha Silva do Carmo, estudante de Psicologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, que faz pesquisas no Acervo da Biblioteca João Ferreira do IPUB — UFRJ (Instituto de Psiquiatria Brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro). Todas as quartas e sextas-feiras, Mariana e um grupo de colegas de curso vão até a biblioteca e procuram nos livros do Acervo testes psicológicos, ou testes de inteligência, de pacientes internados no Hospital Nacional de Alienados, atual Palácio Universitário da UFRJ, entre 1908 e 1930. Com luvas e muito cuidado, os alunos percorrem os livros em buscas desses exames, com objetivo de pesquisa e análise, escrevendo fatos que, segundo eles, despertam e merecem atenção e escrevem diários de campos narrando as suas experiências.

Os testes psicológicos feitos naquela época foram criado por Alfred Binet, pedagogo e psicólogo conhecido pela sua contribuição no campo da psicometria, e eram aplicados a fim de avaliar a inteligência do paciente interno e, desse modo, diagnosticar a doença mental. Na ficha das pessoas internadas no Hospital, além do teste psicológico, há também a avaliação fisiológica (identifica doenças orgânicas) e os retratos dos pacientes.

É interessante colocar rostos naqueles testes. Os diagnósticos eram variados, mas o alcoolismo foi dado muitas vezes como o motivo da internação. Histeria, psicose, enfraquecimento mental adquirido eram diagnósticos que vinham acompanhados de nomes e de rostos que apareciam através da foto. Nesse caso, aquelas fotografias, analisadas hoje, humanizam aquelas pessoas, elas deixam de ser somente um número e se tornam pessoas que estão em um acervo histórico.

Quando fotografados, os pacientes esboçavam as mais variadas poses e expressões. A maioria ficava neutra, como se imitasse uma foto três por quatro de uma identidade, outros pareciam perturbados, demonstrando seu desequilíbrio psicológico do momento e, em muitos casos, precisavam de enfermeiros que segurassem-os.

O escritor Lima Barreto, por exemplo, ficou internado no Hospital Nacional de Alienados para tratar a doença diagnosticada, o alcoolismo. A experiência de sua segunda internação, de 25 de dezembro de 1919 a 2 fevereiro de 1920, é retratada em seu “Diário do Hospício”, no qual descreve o cotidiano e as instalações daquela instituição:

“O Hospício é bem construído e, pelo tempo em que o edificaram, com bem acentuados cuidados higiênicos. As salas são claras, os quartos amplos, de acordo com a sua capacidade e destino, tudo bem arejado, com o ar azul dessa linda enseada de Botafogo que nos consola na sua imarcescível <beleza>, quando a olhamos levemente enrugada pelo terral, através das grades do manicômio, (…).”(BARRETO, 1993, p.27) “Eu entrei na secção Calmeil, secção dos pensionsitas, na segunda feira, 28 de dezembro. O Inspetor da secção é um velho português de perto de sessenta anos, que me conhece desde os nove. Ele foi em 90, com meu pai, nomeado escriturário das colônias da Ilha do Governador, exerceu as funções de enfermeiro-mor da Colônia Conde de Mesquita. As suas funções eram árduas, porquanto, ficando ela a dous quilômetros e meio da sede da administração, ele arcava com toda a responsabilidade de governar uma centena de loucos, numa colônia aberta para um grande campo, cheio de vetustas mangueiras, a que o raio e o tempo tinham desmanchado os maravilhosos quadriláteros, um dentro do outro, formando uma alameda quadrangular, que devia ser soberba quando intacta, aí pelos tempos de Dom João VI, que a conheceu, pois o edifício principal dela tinha sido uma das casas de recreio que o bom e gordo rei tinha pelos arredores do Rio.” (BARRETO, 1993, p.29)

Imagem retirada do site Memória da Loucura, do Ipub — UFRJ

As palavras do escritor Lima Barreto auxiliam a compreensão de um espaço histórico e, quando juntas às imagens, fazem sentir e reviver.

Prontuários encontrados nos arquivos do antigo Hospício de Pedro II evidenciam a subdivisão de classes sociais que pauta, à época, os serviços de assistência aos doentes mentais do manicômio.

Pertenciam à primeira classe os indivíduos brancos, membros da Corte, fazendeiros e funcionários públicos; à segunda, os lavradores e serviçais domésticos; e à terceira, pessoas de baixa renda e escravos pertencentes a senhores importantes.

Existia ainda uma outra classe, mais numerosa que as anteriores, destinada aos marinheiros de navios mercantes, aos indigentes, principalmente os ex-escravos, e aos escravos de senhores que comprovadamente não tivessem recursos para a despesa do tratamento. Enquanto os pacientes de primeira e segunda classes viviam em quartos individuais ou duplos e se entretiam com pequenos trabalhos manuais, jogos e leitura, os de terceira e quarta trabalhavam na cozinha, manutenção, jardinagem e limpeza.

Paradoxalmente, os últimos recuperavam-se com mais facilidade que os primeiros, que, paralisados pelo ócio, perpetuavam-se na internação.

A fotografia é potente para ilustrar algum conhecimento já adquirido, para fazer conhecer. Quando utilizada, a fotografia, por seu caráter expressivo e plástico, possibilita colocar imagens onde ainda não há palavras, dar forma ao indefinido e, depois, olhar para este conteúdo e significá-lo. Para aquele que a observa, uma fotografia é tanto contemplação quanto espelho daquele que contempla. Observar uma fotografia é, muito além de um instrumento lúdico, um ato criativo capaz até de criar novos valores. É mais do que decodificar uma mensagem objetiva, mas sim marcar a imagem, revê-la, refazê-la e, assim, construir através do olhar.

A fotografia vem sido utilizada nas pesquisas em Psicologia como um facilitador para a produção de sentido. Contudo, ainda são poucas as pesquisas feitas por psicólogos em que a fotografia ocupe um lugar de destaque como instrumento eliciador da subjetividade.

Apesar da maior abertura a novas formas de linguagem na metodologia da pesquisa em Psicologia, a fotografia é tomada como um instrumento de suporte, como documento e às vezes como uma desculpa, um engodo para que os participantes se convençam a falar. Certamente não estamos desmerecendo as pesquisas que se utilizam da fotografia de outras formas, pelo contrário, o objetivo da presente discussão é abrir caminhos, explorar possibilidades e não se deter diante de qualquer alternativa, tal como a que poderíamos propor sob a seguinte indagação: será que ao invés de suporte a fotografia poderia ser tomada como ação?

Referências

Freund, Gisèle. La fotografia como documento social.

O uso da fotografia na pesquisa em Psicologia, Lucas Neiva-Silva e Sílvia Helena Koller.

Rouillé, André. A fotografia: entre documento e arte contemporânea.

Sontag, Susan. Diante da dor dos Outros.

http://www.ccs.saude.gov.br/memoriadaloucura

http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/iah/pt/verbetes/hospedro.htm#historico

despretensiosamente escrevendo e lendo sobre tudo que me interessa e geralmente qualquer coisa me interessa, principalmente tudo. adyelbeatriz.contently.com

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